Era um dia simplesmente frio, com o céu pairando cinza sobre os pedestres. Junto com uma pequena multidão, esperava para atravessar a rua, sobre manchas brancas que eram as sobras de uma faixa. Um guarda-chuva numa mão, uma pastinha preta na outra - típico de um dia de trabalho.
Um dia 12 de junho. Dia dos namorados.
Ia para um restaurante, um por quilo desses do centro da cidade, encontrar com uma moça. Não, não era bem namorada. Era alguém que estava junto quando podia (ou, mais, quando queria), uma moça que acima de tudo podia ouvir horas de conversa absurda, não se importava em ouvir o que não concordava. Somente não concordava, sem gritos, sem interrupção. Educada e brutal como uma cirurgiã. Ou um bisturí.
Ao atravessar a rua, pensava que um presente, mesmo com a falta de qualquer coisa, viria bem, ninguém parece ficar triste ao ganhar algo descompromissado. Detalhes. No meio tempo do almoço iria perguntar sobre a opinião dela num assunto novo, algo que tinha surgido nos pensamentos fazia poucos dias (mas que havia sido muito ruminado tentando tornar uma idéia aceitável).
Da entrada do restaurante ela era visível: uma morena baixinha sentada lá no fundo, uma bolsa vermelha encima da mesa. Sua imagem se misturava com o cheiro de alho e comida quente que impregnava o lugar, numa certa sinestesia irracional que o pessoal antigo iria desprezar. Talvez o colorido das saladas salvasse a cena, mas ela sentada na cadeira parecia a única coisa que valia a pena dentro do pequeno salão.
- E como é que a senhora está?
- Bem, bem, vamos pegando a comida enquanto não enche?
Antes de qualquer coisa, os pratos foram sendo enchidos de comida barata, tutu de feijão, um bife bonito, canelone, ovos de codorna, uma salada de maionese sem cor. Combustível pro resto do dia funcionar, desculpa para uma conversa sem pressa.
- Sabe, estava pensando últimos tempos, depois de tudo que eu vi por aí, creio que sobraram três tipos de moça. Dei uns nomes, fiz uma nomenclatura, que vem das moças originais disso tudo, as primeiras, alfa.
" Pelo que parece, boa parte de tudo se resume em Marianas, Fernandas e Gabrielas. Pois é, creio que existam Fernandas que sejam Gabrielas e Marianas que no fundo sejam mais que Marianas, mas como te disse, isso é só nome.
As Marianas me lembram as meninas que a gente costumava ver na escola, essa gente que fala e tem uma cara normal e são demais de normais... não me pergunta o que é normal, sinto elas um pouco personagens secundárias de seriados da TV, uma coisa assim, sabe a amiga do personagem principal que quase fica com ele mas no fim arranja algo diferente? Bem isso.
Fernandas são bem diferentes, Fernandas soam um pouco menos secundárias, menos gente envergonhada e mais abertas, povo que você anda junto, fala um monte e se apaixona como maluco, feliz da vida com toda a safadeza que imagina, e ela talvez nem exista. E você volta a ser amigo, andar junto e se apaixonar de vez em quando, pessoas que é bom estar em companhia.
Ela olhava com uma cara quase atenta ás palavras, um pouco mais ocupada com seu molho de salada do que com a viagem, mas seguia ouvindo a teoria.
- E as Gabrielas, Gabrielas... são pessoas que parecem um pouco hipnotizantes, talvez sem todos os encantos do mundo das Fernandas, elas nem andam junto com todos e também não sempre são abertas a ninguém, mas dão vontade de estar, não existem simplesmente, estão aí com um pouco de mistério e um halo de loucura e diferença nelas. Estão por aí para estranhar.
"Mas você não sei bem o que seria não, pensei numa Gabriela mas você tem demais de Fernanda e um restinho de Mariana... me parece que você é só você moça!"
Enquanto explicava das Gabrielas, ela já estava mais atenta (o prato já ia quase acabando), ao final, ela olhava totalmente nos olhos, com uma cara totalmente séria, um olhar reto e sem profundeza, direto.
- E eu estou grávida.
Do lado de fora, os pedestres começavam a sentir a chuva. Fazio frio. Frio.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
E como escrever?
Depois de certo tempo sem escrever, excesso de coisas para fazer a cada dia, "mañana será un poco más ayer", mistura de preguiça com falta de grandes ideias para escrever.
Nos ônibus de volta escrevi vários rascunhos, coisas interessantes que não tenho em mente como podem acabar, o vazio de um cobrador, uma moça que encontra um namorado dentro de um restaurante por quilo, alguma coisa sobre história (e se tivesse acontecido....).
Uma coisa que pensei seriamente últimos tempos, principalmente após essa última história que escrevi aqui, é como transformar esses rascunhos em uma sequência que possa interessar a quem lê - e mais que isso, que a pessoa entenda, de vez em quando escrevo coisas que no fim viram enigmas chatos que só eu compreendo (senhor Borges faz enigmas brutais, mas ele está tão em dúvida quanto nós leitores), ou nem enigmas, só mal escrito e confuso mesmo.
Durante uma palestra sobre Projetos, ensinaram uma ferramenta que na hora achei muito mais literária que empresarial: o mapa mental. Vejo agora pela Wikipedia que realmente usam para isso, muito bom que não fique só nessas técnicas de gestão e etcétera...seria você escolher um centro (o cobrador), puxar dele todas as características que você ache pertinente (em minha opinião, mesmo que não apareça no escrito, você é o personagem, tem que saber do que você está falando) e a situação que você quer chegar (se o seu personagem não tiver nexo, motivação nenhuma para a situação, como você vai me convencer? Sr. Carroll tinha as dele encima da Alice...).
Com esse procedimento ando pensando em levar a frente alguma criação de minha cabeça, podem me dizer que isso tira a originalidade toda do processo - mas acabei caindo em situações que não sei resolver mais, poesias de 8 linhas podem demorar um mês para escrever mas creio muito mais intenso o resultado - mas duas folhas de 30 linhas fica bem disperso, fazer algo completo e total (como Vidas Secas em que cada frase o autor te envia exatamente pra onde ele quer) me é complicado, não é resposta de prova (que anda até maior que isso), tem que ser muito mais interessante.
Estou lendo histórias curtinhas pra entender um pouco mais dos ritmos possíveis e de como levar direto ao ponto - James Joyce, Los nuevos de Alfaguara, Guimarães Rosa, A Morte de DJ em Paris. Nada de cronistas.
A próxima coisa que escrever talvez já tenho um começo meio fim melhor... vamos ver, propostas de assunto são ótimas, quando a Milena me diz algo de vez em quando já ajuda, fiz algo sobre Folhas e Bolhas assim, não saiu grande coisa mas já é um começo...
E alguma Carla.
domingo, 12 de abril de 2009
Trânsito na Ilha Parte 8
If i should cease to bring a Rose
Upon a festal day,
'Twill be because beyond the Rose
I have been called away -
(Emily Dickson)
Uma Páscoa, algum domingo perdido dentro do calendário anual de nosso computador de tela LCD. Calendário escorrendo no meio de um líquido que não tenho mínima idéia do que é - e basicamente, quem se importa? O céu azul todo lotado de líquido do espaço sorria vendo a multidão lá embaixo. Muitos de olhos puxados e muitos negros, olhando para os grandes telões na praça colorida. Criançinhas com balões nas mãos, azul vermelho verde amarelo, isopores de bebidas circulando, vapores de fogos no ar tingindo tudo de estrelas.
Todos os pontinhos assistindo um longo discurso do governador, um homem vestido de terno branco e cabelos brancos brilhando por trás da maquiagem e da iluminação natural. Focalizamos lentamente ele pela tela.
A Ilha coberta de corais esbranquiçados no seu arredor marítimo todo podre longe dos turistas de olhos azuis (frase tomando fôlego) brilhava junto aproveitando suas coordenadas geográficas especiais. Sol rachando a praça.
Lentamente uma grande sombra vem se aproximando da multidão. Uma armação mecânica, hélices, peças metálicas mostrando seu bronze e sua ferrugem futura, uma lona verde. A lona verde limão cancelava a beleza do mundo, se mostrava (contra a gramática também, acredite) com essa cor chapada, exagerada, sem meios tons, sem cor de folhas ou de limões. A cor era fábrica, a cor era tinta. Soava liquidação. Limão.
O dirigível chegava na praça, aplausos, gritos, uivos, em sua cabine duas figuras acenavam para todos. Um homem burocrático, uma mulher.
A mulher chorava, sorria, aplaudia, voava.
Não tem nada além de tristeza atrás da tela de LCD. Preparem as câmeras, é hora de finalizar a operação.
. . .
fim.
sábado, 14 de março de 2009
Trânsito na Ilha Parte 7
Dona Vitória estava sentada no quarto branco.Três gerações de tinta branca tatuando as paredes deram a ela um bom brilho,um brilho bem fixo de limpeza,de neve.Okey.Não estava conseguindo exatamente reparar em grandes detalhes últimos dias,via mais por cima que a limpeza,via só a parede,algum quadro pregado nela,umas fotos perdidas.A vida era clean,sem detalhes ali dentro.A vida toda em inglês pelo jeito também.Sem dicionários.
O livro enorme encima da cama estava sendo devagarinho processado,ele basicamente muito grande.Páginas e páginas de contas,de processos,de anotações confusas de um antigo super estudante.Mas no fim isso tudo tinha sua beleza de algum jeito,ele caminhava,mais girava e girava,rumo a um meio,um motivo,ia descrevendo e voltando sempre num ponto em comum.
Descrevia todas as asas,todos os morcegos,o canto dos passarinhos,a mecânica profunda aplicada ao barulhinho desse canto,como equacioná-lo e transformar ele numa álgebra de duas páginas horrível.
Mas com alguma beleza lá de fundo.
O livrinho todo queria voar.Foi entendendo durante as últimas semanas como ele tentava pular do ninho,pouco simples voltar a ser filhote toda engessada.Não daria pra voar sozinha,mas ela ia tentando.Saiu por uns lugares bastante perdidos da Cidade,conversou com velhinhos de barbas ralas que diziam ter sido heróis algum dia,comprou de ferros-velhos tomados por tétano algumas hélices enormes (guardadas num galpãozinho alugado por uma corretora chatissíma),arames,ferramentas,pediu uma licença pra Luh,trabalhar sozinha por um tempinho,rapidinho,só pra poder pensar um pouco sozinha...Sozinha.
Estava montando um bicho enorme,uma máquina feita toda do que sobrou de outros trogloditas bem antigos,todo um fóssil vivo,um dia conhecedor de tudo no ar da Cidade.
Vamos voando de verde até a Ilha um dia desses.
. . .
Toca um telefone no quarto branco.
-Vih,e como é que você está,sumiu esses dias!
-Ah,só descansando um pouco,já volto em grande estilo!
Risadas no apartamento de uma viúva.
O livro enorme encima da cama estava sendo devagarinho processado,ele basicamente muito grande.Páginas e páginas de contas,de processos,de anotações confusas de um antigo super estudante.Mas no fim isso tudo tinha sua beleza de algum jeito,ele caminhava,mais girava e girava,rumo a um meio,um motivo,ia descrevendo e voltando sempre num ponto em comum.
Descrevia todas as asas,todos os morcegos,o canto dos passarinhos,a mecânica profunda aplicada ao barulhinho desse canto,como equacioná-lo e transformar ele numa álgebra de duas páginas horrível.
Mas com alguma beleza lá de fundo.
O livrinho todo queria voar.Foi entendendo durante as últimas semanas como ele tentava pular do ninho,pouco simples voltar a ser filhote toda engessada.Não daria pra voar sozinha,mas ela ia tentando.Saiu por uns lugares bastante perdidos da Cidade,conversou com velhinhos de barbas ralas que diziam ter sido heróis algum dia,comprou de ferros-velhos tomados por tétano algumas hélices enormes (guardadas num galpãozinho alugado por uma corretora chatissíma),arames,ferramentas,pediu uma licença pra Luh,trabalhar sozinha por um tempinho,rapidinho,só pra poder pensar um pouco sozinha...Sozinha.
Estava montando um bicho enorme,uma máquina feita toda do que sobrou de outros trogloditas bem antigos,todo um fóssil vivo,um dia conhecedor de tudo no ar da Cidade.
Vamos voando de verde até a Ilha um dia desses.
. . .
Toca um telefone no quarto branco.
-Vih,e como é que você está,sumiu esses dias!
-Ah,só descansando um pouco,já volto em grande estilo!
Risadas no apartamento de uma viúva.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Trânsito na Ilha Parte 6
Do correspondente na Ilha do Coral para A Gazeta da Cidade.
Ontem durante o começo da noite foi exposto á mídia,por policiais que preferiram não serem identificados,uma cópia do relatório provisória sobre o caso do engenheiro Roberto M., assassinado na sexta-feira passada.Segundo o documento,a polícia tem trabalhado com diversas hipóteses sobre possíveis motivos do crime,levando em conta desde brigas emocionais até terrorismo partidário.
Sabe-se que o engenheiro estava trabalhando em um projeto ligado ao vice-governante,o famoso dirigível turístico aprovado ano passado para fomentar o turismo da região,mas que foi duramente criticado pela oposição como um simples capricho dos líderes locais,utilizando o dinheiro público para atividades que somente os turistas iriam poder aproveitar.Devido a isso,especula-se que grupos radicais,visando abortar o projeto,tenham matado uma das peças chaves de todo o processo.A polícia da Ilha teve vários problemas com grupos terroristas na última década,porém já faz 3 anos que nenhum era suspeito de crimes,parecendo demonstrar a força dos tratados de paz,provavelmente um pouco abalados a partir desse fato.Nenhum grupo ou partido posicionou-se até o momento sobre as suspeitas e na semana anterior todos repudiaram o assassinato.
Também especula-se ser um crime sentimental,pois a noiva de Roberto M. chegaria de viagem exatamente no dia posterior ao acontecimento,podendo estar relacionado a amantes ou similares,até mesmo cogita-se problemas de relacionamento com os outros trabalhadores do projeto,devido ao local onde ele foi encontrado,de difícil acesso a pessoas não relacionadas ao dirigível.
Roberto M. era um engenheiro mecânico formado faz 3 anos pela Universidade da Cidade (UDC),considerado um aluno excepcional pelos seus professores,ganhando vários concursos durantes o seu período de formação.Recebeu recentemente um convite para trabalhar por 6 meses para o governo da Ilha do Coral,sendo assassinado na sexta-feira passada e enterrado esse domingo no Cemitério de São Jorge,o mais central da cidade,num evento em que compareceram várias autoridades pelo caráter internacional do fato.
Ontem durante o começo da noite foi exposto á mídia,por policiais que preferiram não serem identificados,uma cópia do relatório provisória sobre o caso do engenheiro Roberto M., assassinado na sexta-feira passada.Segundo o documento,a polícia tem trabalhado com diversas hipóteses sobre possíveis motivos do crime,levando em conta desde brigas emocionais até terrorismo partidário.
Sabe-se que o engenheiro estava trabalhando em um projeto ligado ao vice-governante,o famoso dirigível turístico aprovado ano passado para fomentar o turismo da região,mas que foi duramente criticado pela oposição como um simples capricho dos líderes locais,utilizando o dinheiro público para atividades que somente os turistas iriam poder aproveitar.Devido a isso,especula-se que grupos radicais,visando abortar o projeto,tenham matado uma das peças chaves de todo o processo.A polícia da Ilha teve vários problemas com grupos terroristas na última década,porém já faz 3 anos que nenhum era suspeito de crimes,parecendo demonstrar a força dos tratados de paz,provavelmente um pouco abalados a partir desse fato.Nenhum grupo ou partido posicionou-se até o momento sobre as suspeitas e na semana anterior todos repudiaram o assassinato.
Também especula-se ser um crime sentimental,pois a noiva de Roberto M. chegaria de viagem exatamente no dia posterior ao acontecimento,podendo estar relacionado a amantes ou similares,até mesmo cogita-se problemas de relacionamento com os outros trabalhadores do projeto,devido ao local onde ele foi encontrado,de difícil acesso a pessoas não relacionadas ao dirigível.
Roberto M. era um engenheiro mecânico formado faz 3 anos pela Universidade da Cidade (UDC),considerado um aluno excepcional pelos seus professores,ganhando vários concursos durantes o seu período de formação.Recebeu recentemente um convite para trabalhar por 6 meses para o governo da Ilha do Coral,sendo assassinado na sexta-feira passada e enterrado esse domingo no Cemitério de São Jorge,o mais central da cidade,num evento em que compareceram várias autoridades pelo caráter internacional do fato.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Trânsito na Ilha Parte 5
"Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor,frio escalpelo,
O meu olhar quebrei,a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo"
(Camilo Pessanha,Clepsidra)
Um corredor de duas paredes branco-desinfetante era tudo o que cabia dentro do seu horizonte.Um homem de olhos puxados,baixo,sapatos maiores que seu número soando no piso,andava rumo a última porta fechada lá no fundo.Com um velho movimento abriu,nada de travas ou trancas,caminho livre até o destino das duas meninas que o acompanhavam.As duas com olhinhos tristes,maquiagem já borrando sem controle,a mais alta não conseguia conter o choro (tentava,soluçava,soluçava),entraram ambas devagar dentro do recinto gelado.
E ela viu como estava o Roberto.Seu noivo tinha cara transformada numa massa avermelhada,sua camisa azul ganhando uma tinta que parecia ser mistura de lava com barro,numa longa faixa reta,um profundo corte que dividia na altura das costelas boa parte de seu peito.Não mancharam nem muito mais de sua roupa.Seguia de sapatos pretos com cadarços pretos,seguia com seu relógio falso no braço direito.E no seu dedo até brilhava,meio sujo,meio melado,um anelzinho dourado.Ela sabia bem o que ele dizia.
Não tinha tido nenhum momento mágico de entrega,aquela formalidade chata dos pais não dava mais que momentos constrangedores geralmente.Não queria nenhuma festa,não queria nada.Mas agora nunca mais ia poder ter.Nunquinha mais.Seu noivo esfaqueado,cadáver,nunca subiria em nenhum altar,não diria “Sim” levemente nervoso,até poderia usar o terno que tinha comprado pra ele,mas ela não teria como acompanhar,casaria direto com outra noiva,com a terra úmida de chuva da Cidade.
Sua cabeça girava,melodramática,lembrava do que era morte,do que era morrer,do vôzinho sumido faziam muitos anos,cabeça ia de outros velórios,não se concentrava nesse,naquela sala onde o homem tinha acabado de sair e chegava um outro em seu lugar.Roberto ainda brilhando um anel,imaginava como brilhava uma faca rasgando ele,sabia que ele não tinha como ter pensado nela,o adeus deles tinha sido outro dia pelo telefone,ela avisando como iria pra lá,definitivamente não existia telepatia,na sexta só sentia sono dentro do avião,mais nada entre aqueles filmes chatos.Fazia tempo,muito tempo, que não brotavam tantos “não” de dentro dela.
E chorava agora sem se importar muito,dona Luíza abraçava ela forte também,com um cara triste mas tentando ajudar em algo,será que a Luh podia ter ouvido alguma mensagem dele,será que só ela não entendia a telepatia? Sabia que sua cabeça estava tonta,não fazia sentido,sabia só o Roberto morto na mesa,pois é,morto.
Morto.Admitia,admitia a ausência de vida,mas era impossível entender uma ausência de vida tão feia,uma pele tão amarelada pra um cara que morava perto da praia,manchas tão brutais.Por que fizeram aquilo,ele tinha noiva,tinha uma moça pra dar uma festa junto dali a alguns meses,tinha uma moça pra amar,amar e discutir o quanto desse na vida,tinha mais uns oitenta anos de reserva guardados dentro do bagageiro,por que não compreendiam? Por que não esperaram sua visita pelo menos,eram só cinco dias,só cinco dias!
-Senhora,teremos de sair daqui,a polícia gostaria de fazer algumas perguntas...
Ela não queria sair.Era o pior lugar do mundo pra ficar,um nojo de branco,sangue escorrido,clima de hospital em pesadelos,mas podia ficar resto da vida vendo o brilhinho daquele anel,última coisa sobrando inteira do seu noivo,do seu querido,do seu Roberto (girava melodrama,girava).O homem insistiu,ela passou a chorar forte,Luíza falou rápido com ele,mais alguns minutos.Só mais alguns minutos.
No teu olhar sem cor,frio escalpelo,
O meu olhar quebrei,a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo"
(Camilo Pessanha,Clepsidra)
Um corredor de duas paredes branco-desinfetante era tudo o que cabia dentro do seu horizonte.Um homem de olhos puxados,baixo,sapatos maiores que seu número soando no piso,andava rumo a última porta fechada lá no fundo.Com um velho movimento abriu,nada de travas ou trancas,caminho livre até o destino das duas meninas que o acompanhavam.As duas com olhinhos tristes,maquiagem já borrando sem controle,a mais alta não conseguia conter o choro (tentava,soluçava,soluçava),entraram ambas devagar dentro do recinto gelado.
E ela viu como estava o Roberto.Seu noivo tinha cara transformada numa massa avermelhada,sua camisa azul ganhando uma tinta que parecia ser mistura de lava com barro,numa longa faixa reta,um profundo corte que dividia na altura das costelas boa parte de seu peito.Não mancharam nem muito mais de sua roupa.Seguia de sapatos pretos com cadarços pretos,seguia com seu relógio falso no braço direito.E no seu dedo até brilhava,meio sujo,meio melado,um anelzinho dourado.Ela sabia bem o que ele dizia.
Não tinha tido nenhum momento mágico de entrega,aquela formalidade chata dos pais não dava mais que momentos constrangedores geralmente.Não queria nenhuma festa,não queria nada.Mas agora nunca mais ia poder ter.Nunquinha mais.Seu noivo esfaqueado,cadáver,nunca subiria em nenhum altar,não diria “Sim” levemente nervoso,até poderia usar o terno que tinha comprado pra ele,mas ela não teria como acompanhar,casaria direto com outra noiva,com a terra úmida de chuva da Cidade.
Sua cabeça girava,melodramática,lembrava do que era morte,do que era morrer,do vôzinho sumido faziam muitos anos,cabeça ia de outros velórios,não se concentrava nesse,naquela sala onde o homem tinha acabado de sair e chegava um outro em seu lugar.Roberto ainda brilhando um anel,imaginava como brilhava uma faca rasgando ele,sabia que ele não tinha como ter pensado nela,o adeus deles tinha sido outro dia pelo telefone,ela avisando como iria pra lá,definitivamente não existia telepatia,na sexta só sentia sono dentro do avião,mais nada entre aqueles filmes chatos.Fazia tempo,muito tempo, que não brotavam tantos “não” de dentro dela.
E chorava agora sem se importar muito,dona Luíza abraçava ela forte também,com um cara triste mas tentando ajudar em algo,será que a Luh podia ter ouvido alguma mensagem dele,será que só ela não entendia a telepatia? Sabia que sua cabeça estava tonta,não fazia sentido,sabia só o Roberto morto na mesa,pois é,morto.
Morto.Admitia,admitia a ausência de vida,mas era impossível entender uma ausência de vida tão feia,uma pele tão amarelada pra um cara que morava perto da praia,manchas tão brutais.Por que fizeram aquilo,ele tinha noiva,tinha uma moça pra dar uma festa junto dali a alguns meses,tinha uma moça pra amar,amar e discutir o quanto desse na vida,tinha mais uns oitenta anos de reserva guardados dentro do bagageiro,por que não compreendiam? Por que não esperaram sua visita pelo menos,eram só cinco dias,só cinco dias!
-Senhora,teremos de sair daqui,a polícia gostaria de fazer algumas perguntas...
Ela não queria sair.Era o pior lugar do mundo pra ficar,um nojo de branco,sangue escorrido,clima de hospital em pesadelos,mas podia ficar resto da vida vendo o brilhinho daquele anel,última coisa sobrando inteira do seu noivo,do seu querido,do seu Roberto (girava melodrama,girava).O homem insistiu,ela passou a chorar forte,Luíza falou rápido com ele,mais alguns minutos.Só mais alguns minutos.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
O Trânsito na Ilha Parte 4
O avião encurtou as distâncias,o avião reduziu o tempo perdido em viagens,o avião...mas mesmo assim oito horas seguidas sentada continuavam cansando.Dona Luíza passava pela burocracia da polícia federal sonífera,sua cabeça doía,não devia ter bebido aquelas garrafinhas de vinho que a aeromoça ofereceu,imaginava como o álcool se divertia dentro do seu corpo a dez mil metros de altura.Ou quanto fosse aquela altura.Agora estava ela e a amiga,a Vih (elétrica super viva,não se afetou muito de atravessar o oceano e ir parar na ex-colônia paraíso dos avôs...) esperando chegar as malas na esteira,giravam aquelas bolsas todas pretas,cinzas,quando aparecessem as delas,laranjas,cheias de adesivinhos coloridos,psicodelia levemente brega,mas também, deixava impossível qualquer roubo ou coisa parecida (paranóia...).O aeroporto com um chão brilhante,as colunas todas coloridas,quanto mais pro horizonte esquerdo você olhava mais escuras iam ficando,um jeito de se localizar no meio daquela falação de todos os lugares ao mesmo tempo.Jogaram suas bolsas finalmente,alguns risos da platéia ansiosa por seus pacotes cinzentos,dali a duas horas vai ver achavam...
As duas sentaram numa lanchonete,pediram um enroladinho de carne ou qualquer coisa realmente parecida,saborosamente trans,um pouco mais sossegadas fisicamente,sua amiga ligou pro noivo.Ninguém atende.
-Roberto acho que deve estar dormindo,ele parece aquele cachorro gordo depois de dois quilos de ração,daqui a uma meia hora ele é capaz de já vir aqui sem nem ligar pra saber se chegamos! Vamos comendo essa coisa Luh,se quiser meu pedaço,fica mais do que a vontade...
...
Num mundo localizado a 5 fusos-horários,uma chuva grossa batia nas janelas pedindo pra entrar num apartamento do centro da cidade,estralando nos vidros junto com o barulhinho do telefone.Um seu Artur de pijama comprido e insone levantou da cama,não gostava daquele inferno aquático todo,queria notícias da filha atravessando o mar no meio da tempestade.
-Vitória?
-Senhor,estou falando com Artur Pereira?-Sim,sim!
-Sou da embaixada da Ilha do Coral,estive tentando comunicar-me com sua filha na última meia hora,mas não a encontramos,entramos em contato com a empresa de seu genro e eles forneceram seu número..
-Mas o que acontece?
-Infelizmente tenho que informar ao senhor uma má notícia.O senhor Roberto Andrade foi encontrado morto embaixo de uma escada na noite de ontem,num prédio de uma academia.Faremos o máximo de esforços para...
Um telefone cai no chão.
As duas sentaram numa lanchonete,pediram um enroladinho de carne ou qualquer coisa realmente parecida,saborosamente trans,um pouco mais sossegadas fisicamente,sua amiga ligou pro noivo.Ninguém atende.
-Roberto acho que deve estar dormindo,ele parece aquele cachorro gordo depois de dois quilos de ração,daqui a uma meia hora ele é capaz de já vir aqui sem nem ligar pra saber se chegamos! Vamos comendo essa coisa Luh,se quiser meu pedaço,fica mais do que a vontade...
...
Num mundo localizado a 5 fusos-horários,uma chuva grossa batia nas janelas pedindo pra entrar num apartamento do centro da cidade,estralando nos vidros junto com o barulhinho do telefone.Um seu Artur de pijama comprido e insone levantou da cama,não gostava daquele inferno aquático todo,queria notícias da filha atravessando o mar no meio da tempestade.
-Vitória?
-Senhor,estou falando com Artur Pereira?-Sim,sim!
-Sou da embaixada da Ilha do Coral,estive tentando comunicar-me com sua filha na última meia hora,mas não a encontramos,entramos em contato com a empresa de seu genro e eles forneceram seu número..
-Mas o que acontece?
-Infelizmente tenho que informar ao senhor uma má notícia.O senhor Roberto Andrade foi encontrado morto embaixo de uma escada na noite de ontem,num prédio de uma academia.Faremos o máximo de esforços para...
Um telefone cai no chão.
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